Entrevista a João Correia

“O folk tem essa cena muito simples, despida e honesta que hoje em dia me interessa mais do que muitos outros estilos musicais”

No panorama musical existem fundamentalmente dois tipos de artistas no que toca à criação de bandas e participação em projetos paralelos. Aqueles que se mantêm toda a carreira fiéis e associados a um e só um grupo musical, e aqueles que se conseguem desmultiplicar em várias frentes e dividir o seu talento nos mais variados quocientes musicais. João Correia é um bom exemplo deste segundo caso de estudo. O baterista, que à primeira surge associado à vocalização em Julie & the Carjackers, participa num número quase incalculável de projetos que vão desde Walter Benjamin a They’re Heading West. Todavia, o percurso de João Correia começou nas seis cordas e só depois é que passou para a bateria, instrumento através do qual o artista estreitou a sua relação com a música e que o levou a frequentar as escolas do Hot Club de Portugal. Em entrevista ao Off The Record, o músico explica como tudo começou. “Eu lembro-me perfeitamente do dia em que os meus pais me compraram a guitarra. Foi numa loja assim tipo Jumbo ou Continente. Sempre que passava pela montra ficava maravilhado com os instrumentos que estavam em exposição. Até que um dia os meus pais me alertaram que já tinha juntado dinheiro suficiente para comprar a guitarra. Comprei uma que estava em promoção, baratíssima, até vinha com amplificador e tudo. Fui para casa de seguida, se bem me lembro estava a dar o “Jaws” na televisão, e recordo-me de estar a tentar copiar a música do filme, de ter partido logo uma corda e de os meus pais me repreenderem por já ter estragado a guitarra. Levei semanas para conseguir substituir a corda. E quando o consegui, continuei a treinar umas malhas. No entanto, como meu primo também tocava guitarra, eu pensei que fazia mais sentido ter uma bateria para o poder acompanhar nas músicas. Comprei a bateria passado um ano. Recordo-me de ter entrado no Hot Club sem bases nenhumas de técnica de bateria, ridículo”.

Mas antes de ingressar numa das mais conceituadas escolas de música jazz do país, o músico já tinha tido as suas primeiras experiências nos campos do punk-rock. O primeiro projeto de sempre de João Correia foram os The Fart Simpson Band, uma experiência "familiar" que levou o músico a desvendar os segredos e as manhas das gravações multipistas. “Um dos meus primos tocava guitarra e o outro enrolava os cabos. Íamos tocando e «jammando» muito lá em casa, aprendendo uns com os outros”, relembra o músico. “Depois meti na cabeça que queria arranjar um gravador de quatro pistas. Demorámos bastante tempo a perceber como funcionava. Gravámos umas demos terríveis, porque não sabíamos como se faziam as coisas. Gravávamos primeiro a guitarra e as baterias depois, o tempo ficava todo desmanchado”, acrescenta. Depois deste primeiro esboço musical, João Correia decidiu enveredar por trilhos mais sérios, sozinho e com um objetivo fixo. “Passei a estar em casa dos meus pais todos os fins-de-semana, em Azeitão. Estava sozinho, tinha o quatro pistas, e comecei a querer gravar um álbum por ano: um álbum muito fanhoso e manhoso numa cassetezinha, em que tinha de conseguir tocar os instrumentos todos. Fui aperfeiçoando a minha técnica de baixo, que não era um baixo, era uma guitarra cortada cá em cima para caberem cordas, pois não tinha dinheiro para ter todos os instrumentos.”, confessa.

Depois destas primeiras experiências de garagem, João decidiu, então, inscrever-se nas escolas do Hot Club de Portugal. “Fiz os testes de admissão, entrei para a escola de jazz, fiz o curso completo de bateria – foram cinco anos – e depois disso comecei a tocar ao vivo em termos de trabalho. Mas depois pus o jazz completamente de parte, porque achei que não tinha tanto a ver comigo. No entanto, deu-me uma ajuda enorme em termos de técnica, porque um gajo lá é obrigado a tocar vários instrumentos e a aprender conceitos de melodia e harmonia”. Hoje em dia, o músico que outrora esteve imerso nas correntes oriundas de Nova Orleães, foca a sua paixão nas áreas do rock e da folk. “Os projetos em que tenho tocado mais fazem parte desse circuito: Walter Benjamin, Márcia, Frankie Chavez... Mas tenho feito de tudo, desde a música tradicional, num projeto que se chama Adufe, até bandas de jazz genuínas. Toquei com o Manuel Paulo, da Ala dos Namorados... montes de malta diferente. Desde 2009 tenho perdido mais tempo a escrever, cantar e gravar as minhas músicas. Basicamente é o que vai ficar – quando um gajo for com os porcos, é o que fica. (risos) Acaba por ser a obra, só... Ninguém vai dizer: «ele tocou muito bem bateria neste concerto!». Convém gravares alguns discos e deixares alguma coisa".

Recentemente, João Correia decidiu formar mais um projeto, também ele a respirar os ares da folk music, intitulado Tape jUNK. Alguns anos depois da sua aprendizagem musical nas escolas do Hot Club, o músico reflete sobre as razões que o levaram a trocar a complexidade do jazz, pela simplicidade da música ligada às raízes norte-americanas. “Eu dantes era um pouco obcecado em escrever músicas que fossem muito interessantes para mim, e que fossem difíceis, com muitas manhas e compassos complexos. Mas depois comecei a ouvir a simplicidade de artistas como Velvet Underground, Neil Young, Bob Dylan ou Red House Painters. Comecei a inteirar-me que a melodia é que faz tudo – essa é uma das grandes características do folk”. E acrescenta, “na maioria das vezes, eu costumo escrever a melodia ao mesmo tempo que escrevo a letra, para a parte instrumental ir ao encontro das palavras que estou a dizer. Tu escreves e quando estás concentrado na tua melodia e na tua letra, a tua guitarra está a fazer o mínimo dos mínimos, a dar só os acordes base para suportar aquilo que estás a fazer. Isso fez-me pensar muito sobre simplificar ao máximo a base musical das canções, de forma a passar cá para fora o que estou a dizer e a cantar sem muitos adereços. O folk tem essa cena muito simples, despida e honesta que hoje em dia me interessa mais do que muitos outros estilos musicais".

De facto, é esta simplicidade que bandas como Julie & The Carjackers, Márcia, Walter Benjamin, Frankie Chavez, They’re Heading West, Tape jUNK e todos os outros projetos a que o multi-instrumentista está associado, respiram. O mesmo caminho cru, simples e eficaz que artistas como Johnny Cash e Bob Dylan tomaram e que tornaram as suas composições em autênticas obras de arte do mundo musical.

Manuel Rodrigues
















João Correia: Mais do que um elemento do núcleo

Em pequeno esteve dividido entre a guitarra e a bateria. Começou pela primeira, mas acabou por confessar o seu amor pela segunda. Aprendeu a tocar sozinho, a ver cassetes de vídeo, e mais tarde decidiu investir na sua formação técnica. Toca bateria com a Márcia, Walter Benjamin, Frankie Chavez e tantos outros projectos. Em 2009 decidiu que também haveria de deixar a sua marca na música portuguesa. João Correia é metade do génio criativo de Julie and the Carjackers e, sozinho, tomou agora as rédeas de Tape JUNk.

“Comecei muito cedo, tinha 10 anos quando comprei a minha primeira guitarra”. É assim que João Correia começa por contar a sua história. Aprendeu a tocar com os dois primos mais velhos e, quatro anos depois, compraram um gravador e formaram uma banda punk. Foi assim que João gravou as suas primeiras demos. Umas com os primos, outras em nome próprio, mas tudo de forma ainda muito amadora. “Só agora, com os Julie and the Carjackers, estes anos todos depois, é que senti que percebi como as coisas funcionavam. Consegui pôr um disco cá fora em nome próprio e ter orgulho nisso”.

Inicialmente optou pela guitarra e, depois de ter aprendido as bases, achou que fazia mais sentido passar para a bateria. “O meu primo também tocava guitarra daí que pensei que fazia mais sentido ter uma bateria para o poder acompanhar nas músicas. Comprei a bateria passado um ano e nem sabia tocar”. Do punk para o jazz é uma transição um pouco estranha, mas motivada, principalmente, por uma curiosidade crescente. “Ia sempre ao CCB das 19h às 21h, onde vias concertos de jazz, de duas horas, de borla. E pensava: isto é incrível! Um tipo que ouve rock e punk rock desde sempre e de repente chega ali e começa a ver os músicos de jazz a tocar, Eu, que estava a tocar com força, não sabia muito sobre destreza e técnica. Para mim eram coisas novas. Eu ficava louco com aquilo e não percebia nada do que se estava a passar: os solos, tudo. Não percebia a construção, nada“. Sem grandes conhecimentos de técnica, fez os testes de admissão para um curso de cinco anos no Hot Club. Tocou com várias pessoas e fez alguns contactos até perceber que o jazz não era para ele. “Percebi que não me vinha do coração e perdi a parte curiosa porque percebi como funcionava”. 

Preferiu antes deixar a sua marca na música. Desde 2009 que divide o tempo entre a bateria, o microfone e a guitarra, pois passou a escrever, cantar e gravar as suas músicas. “Basicamente é o que fica. Ninguém vai dizer «ele tocou muito bem bateria neste concerto» (risos)“. O percurso da composição levou-o até aos caminhos da simplicidade da folk. “Eu costumo escrever a melodia ao mesmo tempo que escrevo a letra, para os acordes irem ao encontro das palavras que estou a dizer. E estes são acordes base, o mínimo dos mínimos para suportar o que estás a fazer. Isto fez-me pensar sobre simplificar ao máximo a base musical das canções para que o que eu estou a dizer e a cantar passar mais cá para fora em vez de estar a por muitos adereços. E a folk tem essa cena muito simples, despida e honesta que hoje em dia me interessa mais do que muitos outros estilos musicais”. Quanto a influências dentro deste estilo, refere a simplicidade de Johnny Cash como algo incrível, bem como o “ar de cara podre nas letras”.

João Correia faz parte de uma das mais recentes gerações da música portuguesa. Uma geração que encontrou conforto na simplicidade dos discos da folk e no outro lado do Atlântico. Uma geração que partilha palcos, mas também músicos, numa série de laços e ligações que se estabeleceram desde os tempos do liceu. “Uma das pessoas que mais contribuiu para isso foi o Walter Benjamin. O Tiago Sousa, que é pianista, era meu colega do liceu e já na altura tínhamos umas bandas de rock. Mas foi quando formámos os Goodbye Toulouse que começámos a estabelecer outros contactos”. Márcia, que na altura cantava com o Real Combo Lisbonense, um dia ligou-lhe para gravar a bateria no seu disco. “De repente estávamos todos nas mesmas bandas e na mesma editora, a Pataca”. Estabeleceram amizades entre eles e com as outras bandas da editora, como se de uma bola de neve se tratasse, utilizando uma expressão do próprio. “Criou-se um núcleo de bandas que fazem o mesmo estilo musical e que se dão todas muito bem”. O que, como em tudo, tem os seus prós e contras. Se por um lado há uma empatia musical muito admirável, derivada do facto de as pessoas gostarem de tocar e trabalhar umas com as outras, por outro as bandas perdem um pouco a sua personalidade, quando os seus membros integram estes núcleos fechados. “Isso acontece muito cá em Portugal, são sempre os mesmos músicos a colaborar. E no jazz então é muito natural. E contra mim falo, neste disco [Tape JUNk] fui buscar o baixista e o baterista de Julie and the Carjackers. Não havia ninguém que percebesse o conceito deste disco tão bem como eles e que fosse tocar exactamente como eu queria, não resultaria de outra forma. Preferia mostrar uma banda completamente diferente, mas assim é mais honesto”. É justamente esta honestidade que aconselha as bandas a mostrar porque apesar das dificuldades “se a música for honesta, alguém há de pegar”. E a internet é uma ferramenta muito útil.

Os Nirvana e os Pixies fizeram-no querer tocar, os dEUS fizeram-no querer escrever letras. Mas foi com as cassetes de video de concertos de Guns n’Roses e ACDC que aprendeu a dar os toques na bateria e foi com os compositores brasileiros que aprendeu a escrever. “A primeira vez que ouvi a «Construção« do Chico Buarque fiquei completamente obcecado e ouvi-a todos os dias durante uma semana. Ele, o Jobim, o Milton Nascimento e outros tantos fizeram-me prestar atenção às letras e à maneira de escrever”. Ainda assim, confessa que se sente mais confortável a escrever em inglês, embora não descarte o português.

The Good and the Mean é o nome do primeiro álbum de Tape JUNk, com o selo da Optimus Discos. Um álbum pessoal, mais não seja por a capa ser uma fotografia de João em criança, e até terapêutico, com influências folk e com o lançamento previsto para o próximo mês de Junho.

Fora do Casulo

Apresentação do novo álbum de Márcia no Cinema S.Jorge

“Muito boa noite” - com uma doce timidez. É assim que Márcia Santos sobe ao palco do Cinema S.Jorge.  Não esconde que não gosta da exposição nos concertos e de ter todos os olhos em si. Talvez por isso sobe ao palco tão acompanhada.
Casulo é o seu segundo álbum de originais. Dois anos depois de , a cantautora deixou as canções escritas no intimo do seu quarto e escreve agora sobre coisas tão diversas quanto a maternidade e a política, muito ao seu jeito, com a subtileza de quem se esconde por trás de uma suave voz que ecoa sobre uma sala cheia.

«Decanto», «Sussuro» e «Delicado» são as primeiras músicas da noite. Tendo apenas chegado às lojas no dia anterior, conseguem embalar uma audiência que se deixa levar, ainda que não consiga acompanhar cantando.
Para a primeira viagem a 2011, com o tema «Misturas», Márcia chama ao palco a primeira convidada da noite, “a querida Celina da Piedade”, que ao acordeão toca “uma canção do disco anterior, não obstante ao facto de ser o lançamento” do sucessor. Ainda na companhia da acordeonista, «Deixa-me ir», o primeiro single de Casulo, é cantado já com a ajuda de alguns membros do público, mais não seja por ser um tema actual, político até, não daqueles que se cantam frente à Assembleia, mas sim daqueles que inspiram a compreensão. Márcia faz referência também ao vídeo, realizado por Miguel Gonçalves Mendes.

“Espero que estejam a gostar, porque está quase a chegar ao fim. Os concertos são como a feijoada, pensem nisto”, diz entre risos. “Eu pelo menos demoro duas horas a cozinhar, mas depois como muito rápido”. Ainda em Casulo encontramos «Camadas» e «Menina». Para esta última, Márcia trouxe uma flor vermelha que colocou no cabelo e trouxe também o segundo convidado da noite, Samuel Úria, que a acompanha nesta faixa no disco. Samuel entra pelo lado direito do palco, a meio da música, e puxa por Márcia, que até então se tinha mantido reservada e quieta. Depois de apresentar todos os músicos, e ainda com Samuel Úria em palco, passa para o tema «Mais humano sentimento são», que surge com um novo arranjo com toques de bossa-nova e que tem história por trás. “Tocámos esta no Maxime, numa brincadeira, e temos vindo a tocá-la, desde 2009, sempre que nos cruzamos em concertos”, revela Márcia.

 «Pudera Eu», «A pele que há em mim», desta vez sem JP Simões, e «Vem» levam-nos de volta a . «Hora Incerta», «Brilha», «Paz da Noite», que podia ser uma canção de embalar e que marca o regresso de Celina da Piedade, e «Desmazelo» encerram o alinhamento no novo disco e revelam uma Márcia mais comunicativa e que se movimenta mais em palco.
«Pra quem quer» e «Cabra Cega», também do primeiro disco, foram os momentos altos do concerto. A primeira contou com um coro de vozes do público orquestrado pelo baterista João Correia e a segunda contou com a presença de todos os músicos convidados em palco, uma despedida “para disparatar".

No bilhete lê-se “Márcia”, mas deveria ler-se “Márcia e Amigos”. Mais de sete passaram pelo palco, uns ajudaram no disco, outros tantos estão espalhados pela plateia. E Márcia não poupa agradecimentos e salienta o espírito de camaradagem, ainda que não goste da palavra. Uma celebração de amigos, que não só puxa Márcia para fora do seu Casulo como permite desvendar um pouco mais sobre a pele que há em si.

Márcia, a borboleta que há-de vir

O palco estava organizado em meia-luz. Era um bom prenúncio: a noite seria francamente de embalar. Depois de sala composta, aquela mesma meia-luz começava a descobrir-se com a entrada de dez músicos no palanque de madeira, que ordeiramente foram pegando nos intrumentos que lhes competia.

Saiu um "muito boa noite" do microfone. O som, difuso e sem se perceber muito bem de onde vinha iria justificar mais tarde a posição de Márcia: num lugar pouco central, rodeada pelos músicos e sem qualquer pretensão de a mudar. «Decanto» abriu o concerto no Cinema S. Jorge e foi também de um canto que Márcia começou a mostrar-se. A sonoridade abafada semelhante aos britânicos Daughter combinava com uma líder de palco que não o queria ser. Todos estavam vestidos de preto, transpunham uma seriedade livre que viria a engrossar em crescendo o cenário folk.

Entretanto Serginho ou o Sérgio Nascimento, que Márcia viria a apelidar mais tarde de "um dos amigos que dá cor às bandas da actualidade" assumia os tambores em palco enquanto os três homens de sopro se resguardaram no lado esquerdo da sala. Nisto «Sussurro» foi tocado assim mesmo: quase todo ele como se fosse um segredo (um volume baixo que imperou em quase todo o alinhamento) e com Márcia a parecer uma Joan as Policewoman, mas com menos dramas.

De estilo revisteiro, dona de si e do pedaço, Márcia colocou as mãos nas ancas. Sem coro e quase sem intrumentos, versou «Delicado» com uma voz embargada mas também acriançada, a fazer lembrar a jazzística Luísa Sobral, a amiga que estava também na plateia naquela noite de 14 de Maio.

Seguiu-se  a concertina de Celina da Piedade que trouxe cor à cena monocromática (mais por causa do vestido volumoso e colorido que envergava do que propriamente pela presença); Márcia designou-a como "uma das estrelas da noite" e «Misturas» ouviu-se em dueto. Foi uma música yo-yo, de altos e baixos, de um tradicionalismo algo forçado, utilizado (talvez) para disfarçar uma timidez natural de Márcia, que continuou em «Deixa-me Ir».

"Espero que estejam a gostar porque isto está quase no fim", mentiu à plateia. Preparava-se para «Camadas»; colocava depois  um pequeno gancho no cabelo, que dizia ter sido pensado propositadamente para aquele momento. No meio de uma sonoridade de old west e de uma fotocópia de Margarida Pinto (Coldfinger) ou de Nerina Pallot, Márcia chamava ao palco o gigante (em todos os sentidos) Samuel Úria. Juntos recriam «Menina» e «Mais Humano Sentimento São», com Úria a dançar desengonçado, como se fosse um fantoche com vontade própria. Iluminou a sobriedade de Márcia e acordou a plateia.

E isto foi o mote para Márcia conversar mais com quem estava a vê-la naquela noite, a partir das cadeiras da frente. «Pra Quem Quer», do primeiro trabalho discográfico , foi o bastante para pôr o público a fazer de coro, com João Correia (o baterista) como maestro improvisado. Mais inquieta ou mais efusiva, Márcia percebeu que os seus ouvintes estavam agora mais conectados. «Pudera Eu» trouxe-a mais para a frente do palco e a «Hora Incerta» instaurou a desorganização. Márcia confessou que aquela música era uma espécie de desabafo, "um bocado nocturna". A cacofonia confusa, o sentido menos conciliador de um rock, aliados ao sopro de saxofone viriam, no entanto, a ser sol de pouca dura. «Brilha» remeteu tudo de volta para a doçura e para uma acústica que é, sem margem de erro, o melhor conforto de Márcia.

Começavam as despedidas com «Paz da Noite» e com «Desmazelo» (com Celina da Piedade de novo no palco), altura em que Márcia aproveitou para os agradecimentos da noite: entre editora, compositores, colegas de profissão, a artista orquestrou ainda um obrigada especial ao marido, Filipe Cunha Monteiro, produtor do disco e também dono das teclas em palco. Sairam todos do palco com o público, em frente, de pé.

O encore começou quando Márcia foi avistada ao canto da sala de braços abertos, pronta para subir de novo os pequenos degraus que permitiu que regressasse aos holofotes. «A Pele Que Há em Mim» - música viral no Youtube cantada em parceria com JP Simões - foi ali cantada apenas por ela. O resultado foi um quase acapella que "eufemismou" a voz limpa de Márcia, com em «Vem» a mostrar que também sabe e gosta de vaguear em palco. Com todos ali, ela avisou: "Vamos cantar uma música para despertar, podem cantar o que quiserem; é para a desgraça". De repetente, estavam todos (o público também) a entoar "eu não volto a jogar à cabra cega", enquanto estalavam os dedos. E isto é como quem diz que "o melhor fica sempre para o fim". 

Casulo, o segundo disco de originais da artista portuguesa foi o motivo desta noite. E talvez o mesmo título possa ser dado ao lugar onde Márcia se sente melhor. Ainda está para vir uma Márcia transformada em borboleta: mais livre, mais inteira.


Márcia ao vivo no Cinema S.Jorge

O elevado sentimento de partilha continua a ser uma das mais valias da música feita em terras lusas. Tal faculdade, que andou omissa durante as décadas dos «entas», continua a crescer de ano para ano e abrange todos os patamares musicais que vão desde o mainstream de David Fonseca e Luisa Sobral, até aos confins do subsolo dos artistas da FlorCaveira e restantes companheiras da cena independente. Esta aura saudável que paira no cenário atual da música portuguesa acompanhou Márcia no concerto do passado dia 14 de maio no Cinema S. Jorge, onde a artista apresentou o seu novo álbum de originais, Casulo.

Márcia fez-se acompanhar por cerca de uma dezena de músicos em palco. Entre os instrumentos presentes pudemos encontrar a guitarra Manuel Dordio (Minta & The Brook Trout), a bateria de João Correia (Julie & The Carjackers), a guitarra pedal Steel de Filipe Cunha Monteiro (marido da artista), percussão, coros e um naipe de metais. O alinhamento abriu com «Decanto», o primeiro tema de Casulo, ao qual se seguiriam «Sussurro» e «Delicado». Apesar de Márcia ter evidenciado alguma timidez nos primeiros instantes do concerto, a barreira entre a artista e o público desmoronou-se com a entrada desenfreada e a participação totalmente desinibida de Samuel Úria, um dos convidados da noite que acrescentou voz e guitarra aos temas «Menina» e «Mais Humano Sentimento São». Já antes, Celina da Piedade tinha subido ao palco – vestida a preceito e com um calçado que em muito se assemelhava a Dorothy Gale do livros do feiticeiro de OZ – para emprestar o seu talento e o som do seu acordeão a «Misturas» e «Deixa-me Ir» (mais tarde a parceria viria a repetir-se em «Paz Da Noite»).

Foi com um notável desembaraço que o concerto prosseguiu, com a artista a interpretar canções do seu recentemente estreado Casulo, a par de outras do álbum anterior, e a mostrar-se muito mais comunicativa com o quase esgotado Cinema S. Jorge. É notável sentir, nos intervalos da voz doce e amena que dá expressão às letras – à primeira vista inocentes – de Márcia, uma urgência e uma vontade vulcânica de transmitir uma intenção e uma mensagem, como é perceptível em «Deixa-me Ir» e «Hora Incerta». Esta última, que Márcia assumiu ser a música mais escura e profunda que alguma vez escreveu, veio acompanhada, no concerto em questão, dum excelente apontamento psicadélico que casou na perfeição com a iluminação envolvente e a névoa ténue criada em palco.

Chegado o final do concerto, e depois de uma despedida muito aplaudida à artista e aos seus companheiros, o regresso ao palco ficou pautado pela aprazível «A Pele Que Há Em Mim», canção que Márcia fez questão de interpretar sozinha em cena e que perdeu, como já seria de esperar, algum do brilho e magia com a ausência da voz de J.P. Simões. De seguida, «Vem» proporcionou-nos um dos momentos mais ricos em termos de musicalidade com um exímio e irrepreensível solo de trompete que a própria artista fez questão de salientar no final do tema. «Cabra Cega» encerrou o encore e contou com o regresso de Samuel Úria e Celina Da Piedade ao palco, mas desta vez sem nenhum papel específico a desempenhar, apenas com a finalidade de estarem presentes no momento lúdico que colocou músicos e audiência a relembrar tempos de infância.

Foi em celebração que a apresentação de Casulo chegou ao fim, com o público a agradecer por mais uma excelente performance musical e com a música portuguesa a homenagear-se a si própria com tais momentos intensos de partilha e camaradagem.

Festivais de Verão: Entre o pó dos discos e o som feito de pó

Quando o ano passado os Florence and The Machine anunciaram o cancelamento de parte da digressão que passaria por Portugal, a organização do Optimus Alive desde logo soube que tinha uma batata quente nas mãos. Quem tinha comprado o passe de três dias para o evento junto ao Tejo (quase) só por causa deles, desanimou um pouco. A coisa safaria-se com uma nova edição apetrechada capaz de fazer esquecer o infortúnio de não ter visto de perto o indie rock que a banda londrina, liderada por Florence Welsh, já nos habituou. 

Este ano a divulgação dos senhores que se seguem começou logo em Outubro. A manobra de marketing,  pronta para convencer quanto a uma crise imaginária, parece estar a beneficiar dos gigantes do rock que passarão pela Europa e que vêm dar um pulo a Lisboa. Se os Depeche Mode quase não precisavam de mais conterrâneos para fazer um chamariz em pleno (pelos menos dos jovens que hoje já estão mais perto dos 'entas'), os Kings of Leon vêm para agradar a gregos e a troianos. A fama de que são provavelmente a banda mais intermitente e conflituoso-familiar dos últimos tempos (se não contarmos com os Oasis, claro) faz com que se tenha receio que, numa outra oportunidade, já não sejam 'kings' (reis) de nada. Por outras plavras, é de aproveitar agora a boa disposição. Ao passo que se avizinha coros fortíssimos de "Use Somebody", "Pyro" ou "The End", o punk rock de Billie Joe Armstrong e Mike Dirnt (Green Day) vai transformar o Passeio Marítimo de Algés numa arena mista: os que gostam deles desde 39/Smooth (1990) ou os que ficaram presos ao American Idiot (2004).

A aura vintage do próximo dia 12 de Julho vai ficar ainda mais carregada com os britânicos Stereophonics, que trazem ainda fresquinho o oitavo álbum de estúdio, Graffiti on the Train; assim como os Vampire Weekend, que quando chegarem a Lisboa só têm o Modern Vampires of the City há cerca dois meses a ver a luz do dia ou ainda os Editors, prontos para nos explicarem (de vez) a importância do amor (The Weight of Your Love vai ser lançado no dia 1 daquele mês).

Os Two Door Cinema Club que, apesar de não serem estreantes em terras lusas e de serem uma espécie de corre-capelinhas (actuaram em Portugal em 2011 em Paredes de Coura e, no ano passado, no Festival Sudoeste), são meninos para pôr toda a gente a mexer de novo ao som dos dois discos de estúdio (pouca matéria para tantos testes ao vivo).  No mesmo dia, a Jamie N. Commons - ao qual cabe a honra do Palco Heineken - será pedido que prove porque há razão de ser no que se diz por aí de que se trata de um Tom Waits em versão miúdo; a folk electrónica dos Crystal Fighters será utilizada para ganhar mais adeptos e o americano Steve Aoki deverá trazer consigo a maior expectativa da noite. 

De Algés, os bons ventos vão soprar ainda a favor do colectivo da Califórnia, Jurassic 5, que vem preparado para fazer jus ao nome; do quarteto britânico com repentinos seguidores, Alt-J; do apuradíssimo soul de Jamie Lidell e ainda do som 'beatlelizado' de Tame Impala ou da voz sofrida no meio de um electro pop de George Lewis Jr. (Twin Shadows).

Mas antes de se rumar a uma Lisboa invadida por ingleses à procura de um lugar encantado "à beira-mar plantado", o reggae angolano dos Kussondulola vai fazer "pim pam pum" em Paços de Ferreira e o rock alternativo dos anos 80 vai sair das guitarras de Gene Loves Jezebel, em Águeda, em forma de concerto-memória no dia 11 de Julho.

Do mesmo modo, os UB40 fazem espectáculo-duplo (no Campo Pequeno, em Lisboa, a  28 de Junho) e Vila Nova de Gaia, na Praia do Areinho, no dia seguinte), cidade à qual Tricky regressa depois de ter actuado na edição do ano passado do Optimus Alive. A razão da dobradinha chama-se False Idols, o novo disco do músico de Bristol. Naquela mesma praia, enquanto o jamaicano Anthony B puxa até ao limite os sons herdados de Bob Marley e Peter Tosh, a alemã-nigeriana Ayo vai espremer os seus três discos de estúdio (o último em 2011, Billie-Eve). O seu marido Patrice, por sua vez, vai estar em Angra do Heroísmo, nos Açores.

O dia 29 de Junho é também uma data importante no calendário de Verão porque marcará  a actuação a solo de Orlando Santos, o diamante polido vindo dos Orelha Negra, no Sumol Summer Fest. Os "padrinhos" do Orlando vão também aproveitar as maresias, mas em pleno norte do país. Têm lugar marcado no palco do Festival Marés Vivas a 19 de Julho, dia em que o funk, o soul e o hip-hop da mais recente mixtape vai juntar-se à imagem  (aparentemente) masculinizada da britânica Elly Jackson (La Roux). O regresso ao passado (ou ao pó dos discos) vai ser feita através de Smashing Pumpkins e Bush no mesmo lugar, ou pelos The Killers, Arctic Monkeys, Kaiser Chiefs ou Queens of Stone Age no Super Bock Super Rock (ele há melhor sítio do que este para levantar este pó e o outro?)

E já que não há Bons Sons, em Tomar, há Músicas do Mundo, em Sines, no Algarve. A festa vai ser feita pelos repetentes malianos e quase amigos de longas temporadas de férias, Amadou & Mariam e Rokia Traoré ou pelo paquitanês Asif Ali Khan & Party. Na Zambujeira do Mar, o Festival Sudoeste vai voltar atrás no tempo e parar em 1997 com o som norte-americano dos Soldiers of Jah Army a abrir o fim-de-semana prolongado na Herdade da Casa Branca (de 8 a 11 de Agosto). O dancehall de Capleton vai ter de conviver no mesmo espaço que os feitos electrizantes de Norman Cook (Fatboy Slim); com o solo de Gnarls Barkley e ainda com o reinventado Snoop Lion (ex-Snoop Dogg) e o soul de Solange Knowles, que de tão refinado parece velho.  De volta ao Norte, Paredes de Coura (14 a 16 de Agosto), o In Our Heads (2012) vai ser o motivo de regresso de Hot Chip, banda britânica já com mais de uma década de existência; os suecos The Knife idem e os The Kills ibidem.

Mas a viagem ao interior dos baús começa já no final do mês com o Nick Cave & The Bad Seeds no Primavera Sound no Porto a 30 de Maio. Os Blur seguem-lhe os passos, assim como o californiano Daniel Johnston, o redescoberto Sixto Rodriguez ou a alternativa de My Bloody Valentine. Ah, e a culpa é do Peter Murphy. Naquele mesmo dia 30, o Coliseu de Lisboa vai ser tomado de assalto pelo post-punk dos anos 80. Vamos entrar em modo-revivalista, portanto.


Festivais de norte a sul: Grandes nomes para todos os gostos

Com o Verão chega uma das alturas mais esperadas por muitos: a dos Festivais de Verão. De norte a sul do país, os recintos enchem-se de pessoas que querem sol, calor, música, diversão e fugir do ritmo frenético da cidade durante uns dias.

Comecemos então esta nossa viagem por aquele que inaugura a época dos festivais de verão, e que, curiosamente, é o bebé dos festivais, ainda que seja, ele próprio, um festival urbano. Falamos, pois, do Optimus Primavera Sound, de 30 de Maio a 1 de Junho. Importado dos nossos irmãos, assemelhando-se à versão espanhola que se realiza em Barcelona, e que, com apenas um ano de idade, conseguiu fixar já no Porto a reputação de um festival que consegue reunir a “creme de la creme”, no que diz respeito à música alternativa. Se no ano passado nomes como Wilco, The Flaming Lips, Kings of Convenience, The XX ou The Walkmen passaram pelo Parque da Cidade, este ano a fasquia está certamente elevada. Com Dead Can Dance, My Bloody Valentine, Blur, Nick Cave and The Bad Seeds, Grizzly Bear, James Blake, Explosions in the Sky, Deerhunter, Rodriguez, Meat Puppets, Local Natives, Guadalupe Plata ou The Glockenwise, conjugando os regressos e as novidades, o festival torna-se dos mais apetecíveis e uma excelente forma de dar início a um verão que se apresenta preenchido. De destacar os portugueses Paus e Memória de Peixe, que se juntam aos nomes já mencionados acima e a tantos outros, alguns deles, inclusivamente, escolhidos pela publicação Pitchfork.


Rumamos a sul, em direcção à Ericeira e ao Sumol Summer Fest, o festival onde o reggae é o rei e onde o ideal de verão, praia e boas vibrações assenta que nem uma luva. De 27 a 29 de Junho, sendo que dia 27 é uma welcome party para os campistas, nomes como Alborosie, Dub Inc, Morgan Heritage e o português Orlando Santos, vão animar as tardes e as noites no Ericeira Camping.


Julho começa com EDP Cool Jazz, um festival onde o Jazz dá lugar a outras vertentes e a uma mistura de géneros. Ana Moura e Luísa Sobral, que em comum têm uma vontade e desejo de fundir sonoridades e uma ida ao programa de Jools Holland, na BBC, iniciam o festival em português. Por lá também passam nomes como Rufus Wainwright, Diana Krall, Jamie Cullum, Maria Gadú e Djavan. A expectativa recaí sobre o norte-americano John Legend, que encerra o festival a dia 27 de Julho. Depois de um álbum com os The Roots, estreia-se em Portugal e traz na bagagem muitos sucessos e o mais recente Love in the Future.

Mas, antes disso, acontece o festival que promete ter "o melhor cartaz, sempre". O Optimus Alive, no Passeio Marítimo de Algés, também ele um festival urbano, realiza-se de 12 a 14 de Julho e, como sempre, traz grandes nomes. Essa é, aliás, a única característica que se mantém, num festival que tem estado em constante mutação. O dia do metal ou do rock mais pesado foi-se lentamente transformando no dia do hype, e em 2013, temos essa consagração. Grandes nomes como Depeche Mode, Jurassic 5, Editors, Green Day, Kings of Leon ou Vampire Weekend juntam-se a fenómenos de popularidade recente como Alt-J, Django Django, Of monsters of men e AlunaGeorge, para formar o cartaz de um festival que outrora trouxe nomes como Rage Against The Machine ou The White Stripes. Regressos e fenómenos que fazem o Alive perder o sentimento de descoberta de novas bandas, pelo qual foi também inicialmente valorizado.

Os dias 18 a 20 de Julho são os dias disputados pelo Super Bock Super Rock e pelo Meo Marés Vivas. O primeiro no Meco e o último em Vila Nova de Gaia. Se o Alive mudou, o Super Bock deu uma volta de 180º. Deixou o rock pesado e deitou-se na praia do alternativo, nas paisagens do Meco. Pós à parte, muitos têm saudades da versão urbana e citadina, outros dizem que agora, sim, há um festival de rock como deve ser. Na sua 19ª edição, o Super Bock Super Rock está mais português. Nomes como Mazgani, Samuel Úria, Manuel Fúria e os Naufragos, Asterisco Cardinal Bomba Caveira, Sam Alone and the Gravediggers ou Anarchicks, vão subir aos palcos da Herdade do Cabeço de Flauta. A juntar a nomes como Queens of the Stone Age, Arctic Monkeys, Johnny Marr, Tomahawk ou Black Rebel Mortocycle Club, reúne nomes esperados e há muito pedidos e condensa muito do que se tem feito na música portuguesa.
Já o festival Marés Vivas tem vindo a corresponder a um padrão de ano bom, ano mau, como que um cara ou coroa, sendo que 2013 é claramente um ano coroa. Conseguiram a proeza de tirar o David Guetta do Sudoeste e repetem nomes que recentemente estiveram em palcos portugueses, como The Smashing Pumpkins, James Morrison ou 30 Seconds to Mars. Além disso jogam pelo seguro com nomes portugueses como Rui Veloso ou Virgem Suta. A surpresa vai para o regresso de Bush, Klaxons e La Roux. Resta saber se serão nomes capazes de fazer frente à concorrência e de arrastar multidões até ao Cabedelo.


Os festivais deste ano também dividem artistas, como é o caso dos Orelha Negra, que marcarão presença no Meo Sudoeste e no Marés Vivas, e dos Toy, que estarão no Super Bock Super Rock, seguindo para o Vodafone Paredes de Coura, o que acaba por ser lamentável, numa altura tão rica musicalmente, em que a tecnologia permite que as bandas se apoiem na premissa do “do it yourself” e se lancem de uma forma independente.

 

O Meo Sudoeste, o histórico festival da Zambujeira do Mar, foi outro festival que mudou e agora abriga toda uma diversidade de géneros musicais, desde a electrónica, à soul, ao reggae e ao alternativo. Este ano traz de volta o Snoop, em versão Lion, e traz nomes como Cee Lo Green, Donavon Frankenreiter, Avicii, Soja, Janelle Monáe, Fatboy Slim ou Calvin Harris. O cantor de Gnales Barkley faz a sua estreia por terras lusas, enquanto Fatboy Slim volta novamente depois de uma passagem por cá, no ano passado. Já a cantora de «Tighrope» deixou tudo e todos pelo beicinho depois de uma actuação memorável no já extinto Super Bock em Stock, em 2010, e regressa agora a um palco maior, para delícia de muitos dos seus fãs.

Continuamos no zigzag, sul-norte-sul-norte, rumo à última paragem da nossa viagem, o Vodafone Paredes de Coura, na Praia Fluvial do Taboão, outro festival que é alternativo por excelência e que prima muito pelo ambiente e pelo factor de descoberta. Este ano conta com a presença dos já repetentes de outros festivais The Kills, Hot Chip, Alabama Shakes. Os franceses Justice voltam para um dj set. As expectativas recaem sobre os britânicos Everything Everything e Palma Violets, os primeiros pelo segundo álbum que fez sucesso por entre a crítica e os segundos pelo voto de confiança que receberam da BBC e da NME, que os catapultou de imediato para os grandes palcos, ainda que só tenham lançado o primeiro álbum há poucos meses.

 

2013 é o ano de coroação do alternativo que, ainda que de formas diferentes, atravessa praticamente todos os festivais. Há anos recheados de grandes festivais e há anos com festivais com grandes nomes, para todos os gostos. O ano de 2013 insere-se, sem dúvida, neste último.
 

Época da "caça" aos festivais

Clima quente ajuda ao negócio…das cervejas!

No ano em que o festival Rock In Rio não se realiza em Portugal existem outras opções para os amantes da música ao vivo. Começa já este mês de Maio no dia 30. O Primavera Sound arranca neste penúltimo dia de Maio no Porto com nomes como Nick Cave & The Bad Seeds, James Blake ou  Dead Can Dance. No dia 31 será a vez dos regressados Blur, Grizzly Bear, Rodriguez, Metz entre outros. Os cabeças de cartaz que encerram o festival são os My Bloody Valentine e Dinosaur Jr.

Antes que o mês de Junho acabe e comecem a chegar as "grandes bandas" ainda há tempo para um pouco de reggae. Summol Summer Fest, na Ericeira, decorre nos dias 27 a 29 de Junho. Netsky,Morgan Heritage, Tarus Riley, Delta Heavy, Dub Inc e o conhecidíssimo Alborosie são os principais cabeças de cartaz.

Viajamos agora para Oeiras para o Jardim do Marquês de Pombal. O EDP Cool Jazz Fest tem agendados os concertos imperdíveis : Ana Moura e Luisa Sobral (4 de Junho), Djavan e Maria Gadú (dia 5 de Julho), Lee Fields (dia 21), Diana Krall (dia 24), Rufus Wainwright (dia 25) e os tão aguardados Jamie Cullum e John Legend (dia 26 e 27 respectivamente).

O Alive! este ano apresenta um cartaz mais jovem musicalmente . Decorre entre os dias 12 de Julho a 14 de Julho. Os nomes mais fortes são: Green Day, Steve Aoki, Depeche Mode, Jamie Lidell, Kings Of Leon, Tame Impala, Alt-J, e Django Django. Festival Alive que cada vez mais diminui a sua carga de bandas rock e aposta nas "novas bandas fenómeno". Lembro a edição do Optimus Alive do ano 2009 onde juntaram Metallica, Slipknot, Machine Head e Mastodon no mesmo palco. Steve Aoki regressa depois de ter actuado no Alive no ano de 2011e a presença de bandas portuguesas diminuiu também relativamente.

Ao mesmo tempo que em Sesimbra acontece o festival da cerveja(Super Bock Super Rock) decorre também o Festival Marés vivas em Gaia. Dias 18, 19 e 20 as pessoas terão que escolher qual o cartaz que mais apela ao ouvido e à carteira. Dia 18 no Super Rock vão actuar os já conhecidos Artic Monkeys,  em estreia Johnny Marr e Efterklang entre outros. The Killers, Kaiser Chiefs, Miguel e Black Motorcycle Club ocupam o estatuto de "mais conhecidas". No último dia de festival que era na praia e agora já não é os Queen Of The Stones Age são a grande atracção para um festival desta vez sem pó.

O Marés Vivas aposta em David Getta, nos 30 Seconds To Mars ou nos Smashing Pumpkins para fazer deste pequeno festival um grande investimento na medida em que é realizado no Porto e muitas pessoas de outras partes do país não vão porque: "Não tem grandes bandas fixes que valham andar tantos quilómetros".

Chegamos ao festival que,como os outros, tem sofrido alterações e veste "roupas" diferentes ao longo das edições. Nesta edição do Sudoeste a tendência vai ser para bandas do tipo Mega Hits ou seja música da moda e vão apostar num falso rastafari Snoop Dogg. É de salientar uma banda portuguesa, os Orelha Negra que chegaram finalmente ao palco principal do Sudoeste. Uma dúvida : será que o Pitbull, também confirmado, irá cantar ou irá fazer que canta? O Festival Sudoeste terá acampamento como sempre e realizar-se-à nos dias 8,9 e 10 de Agosto.

Com o verão a acabar o Paredes de Coura apresenta uma das "bandas fenómeno": The Knife, que ficaram 7 anos sem lançar um disco, deixam-nos com o seu segundo álbum «Shaking The Habitual». Pensar que Paredes de Coura já teve Kings Of Convenience ou Kurt Vile…

Quero relembrar que o festival Portugal ao Vivo voltou para uma edição de dois dias (21 de Junho e 22) com The Gift, Pedro Abrunhosa, Miguel Araújo, Deolinda e Wraygunn e Xutos e Pontapés, Resistencia, Sétima Legião,GNR e Madredeus, respectivamente. Madredeus versão sem a Teresa Salgueiro é de salientar.

É no clima quente que se vê as pessoas a desfrutarem destas feiras de música, onde se quer ver tanta coisa que nem se vê nada. É o sítio indicado para ir andar numas diversões, procurar brindes, beber umas cervejas e se ainda houver tempo sentarmo-nos para ouvir o que as bandas têm para nos oferecer e veremos... um mar de pernas apenas. É a única coisa que veremos.


por Tiago Amaral 

 

A electrónica nos festivais nacionais: primeiras confirmações

Aproxima-se a época dos grandes eventos musicais em Portugal. De lés a lés, os cartazes dos festivais começam a compor-se com artistas dos mais variados estilos musicais e das mais diversas nacionalidades. Nestes casos a electrónica é quase sempre deixada para último, porém, já começam a surgir alguns nomes do género nas entrelinhas dos nomes que lideram os cartazes dos eventos.

No Optimus Alive, um dos festivais que reserva um espaço com uma grande inflexão para o estilo - o Optimus Clubbing -, podemos contar com o regresso dos Bloody Beetroots, depois de uma exibição avassaladora na edição de 2011 em que se fizeram acompanhar da Death Crew 77, bem como o de Twin Shadow (o norte-americano deu dois concertos em Portugal no ano passado), Crystal Castles (o duo actuou em fevereiro no TMN ao Vivo) e os Japandroids que deixaram bem marcada a sua passagem pela edição do ano passado do Paredes de Coura. Junto aos cabeças de cartaz do evento podemos encontrar ainda dois nomes magnos do universo electrónico: Steve Aoki e os explosivos 2ManyDJs.

De Algés directamente para a Herdade do Cabeço Da Flauta. O Super Bock Super Rock tem por hábito compilar grandes nomes da música de dança - dá-se o exemplo de edições anteriores pautadas por actuações de artistas como Skrillex, Laurent Garnier, DJ TIesto, Digitalism e LCD Soundsystem, entre outros. Este ano já podemos encontrar um cartaz polvilhado com nomes como Ricardo Villalobos (considerado um dos melhores produtores de techno minimal e micro house), Julien Bracht, Midnight Juggernauts, Octa Push, Mary B e os aclamados Digitalism.

Mais a sul, o Festival Meo Sudoeste já conta com gigantes da música eletrónica como o sueco AVICII, mestre nos campos da house music, o escocês Calvin Harris, mediatizado pelo sucesso radiofónico que criou com Rihanna, o incontornável Fatboy Slim e o português DJ Ride, campeão do mundo de turntablism com o projecto Beatbombers.

Rumando em direcção ao norte, e tendo como primeira paragem a cidade de Gaia, deparamo-nos com o cartaz do Meo Marés Vivas. Por entre os poucos nomes que já foram confirmados para o certame nortenho, já estão incluídos dois nomes importantes e reincidentes em solo português de música electrónica. Falamos do quase residente - em eventos patrocinados pela TMN (este ano MEO) - David Guetta e dos britânicos La Roux.

Ainda mais a norte, perto dos limites territoriais que delimitam Portugal, o Vodafone Paredes de Coura - ainda a meses de se realizar, mas já com alguns nomes confirmados - oferece-nos quatro propostas electrónicas: The Knife, Delorean, os franceses Justice e John Talabot, que proporcionou um dos momentos altos do evento curado pelos The XX nos Jardins da Torre de Belém.

Até à data, são estas as ofertas electrónicas para os eventos musicais em Portugal. E pelos nomes que já foram confirmados, e os que ainda faltam confirmar, adivinha-se um ano recheado de grandes actuações a nível electrónico.

Roteiro Musical do Verão 2013

Estamos de volta a uma grande altura do ano - o verão. Como já é costume, a este caloroso trimestre estão associados as férias (para alguns poucas, mas bem merecidas), os dias na praia e a música. Muuuuita música. Tanta, que poderá ser difícil escolher o que ouvir. Este roteiro foi então composto com o intuito de expor apenas alguns dos maiores ( e melhores) artistas que poderá ver ao vivo este verão:

Primavera Sound
(30 de Maio a 2 de Junho) - entre 45 e 125€

No Porto, temos a destacar Dead Can Dance, Rodriguez, Blur e Nick Cave and The Bad Seeds.

Portugal Ao Vivo
(21 e 22 de Junho) - 1 dia = 30€ / 2 dias = 45€

Se procura um festival plenamente português, aconselhamos que se dirija ao estádio do Restelo, onde poderá ouvir Deolinda, The Gift e Xutos e Pontapés, entre muitos outros nomes "tugas".


Meo Sudoeste
(7 a 11 de Julho) - entre 48 e 95€

Na Zambujeira do Mar, o ambiente será bastante relaxado, e terá a oportunidade de descontrair ao som de S.O.J.A, Fatboy Slim, Calvin Harris e Cee Lo Green.

Optimus Alive
(12 a 14 de Julho) - entre 53 e 105€

O Passeio Marítimo de Algés vai receber nestes três dias muito rock, contando com Depeche Mode, Green Day, Alt-J e Japandroids, entre outros.

Marés Vivas e SuperBock Super Rock
(18 a 20 de Julho) - MV: entre 30 e 60€/ SBSR: entre 48 a 90€

Para os aventureiros de carteira cheia que tentam ir a maioria dos festivais, escolher entre um destes não será fácil. Enquanto que o SBSR tem confirmado nomes como Queens of The Stone Age, Anarchicks, Chk Chk Chk ou Kaiser Chiefs no Meco, no Marés Vivas pode ir até Vila Nova de Gaia para assistir a Smashing Pumpkins, David Guetta, 30 Seconds To Mars e James Morrison. Ambos têm um grande cartaz, e nenhum dos dois tem espaço para campismo. A grande diferença aparenta ser somente o preço, o que, para alguns, pode ser o necessário para uma escolha fácil.

Queens...
ou Smashing Pumpkins??

Mêda+
(25 a 27 de Julho) - grátis

Para aqueles que querem boa música, mas não querem (ou simplesmente não podem) gastar dinheiro, propomos uma ida à Guarda, com direito a trilha sonora dos Supernada, Fonzie e Wraygunn.

CoolJazz Fest e Madeira Island Summer Opening
(26 a 27 de Julho) - CJF: entre 20 e 60€/ MISO: entre 15 a 20€

No final de Julho apresentam-se mais dois festivais cujas datas, infelizmente, colidem, tendo de se proceder à dificil escolha de não ir a Oeiras ouvir Jamie Cullum e John Legend, ou perder a actuação ao vivo de Blasted Mechanism, David Fonseca e Richie Campbell no Funchal.

Norfest
(1 a 3 de Agosto) - entre 40 a 90€

Quase no final do verão, existe outra oportunidade de ver apenas artistas portugueses, desta vez em Mondim de Basto. Lá estarão Arya, Buraka Som Sistema, Moonspell e Tara Perdida à sua espera.

Paredes de Coura
(13 a 17 de Agosto) - 70€

Acabando o roteiro em beleza, só falta sugerir um pulo a Paredes de Coura, onde poderá apreciar The Kills, The Vaccines, DJ Set de Justice e TOY.

Buraka Som Sistema
E assim se irá passar mais um verão por Portugal. Quer tenha possibilidade de assistir a um, ou a todos estes festivais, não se esqueça de fazer uns intervalos para uns mergulhos e gelados. Ambos refrescam e já faziam falta!
 

Faleceu Guitarrista de Slayer, Jeff Hanneman

Faleceu um dos grandes titãs do Metal.
O guitarrista de Slayer, que sofria uma lesão no braço direito devido a uma picada de aranha faleceu hoje por volta das 11:00 da manhã, hora dos EUA.


Os SLAYER fizeram o comunicado através da sua página oficial, conforme abaixo:
“Os Slayer estão arrasados por informar que seu colega de banda e irmão, Jeff Hanneman, faleceu por volta das 11:00 desta manhã perto da sua casa sul da Califórnia. Hanneman estava num hospital da área quando sofreu insuficiência hepática. Deixa a sua esposa, Kathy, a sua irmã Kathy e os seus irmãos Michael e Larry, e irá fazer muita falta.

O nosso irmão Jeff Hanneman, que descanse em Paz (1964 – 2013)”



On The Record #3

Timberlake, o 'Martini Guy'

Justin Timberlake
The 20/20 Experience
RCA Records
9/10

Se o programa que lhe apetece para o final da tarde é ir até um bar de hotel, pedir um martini com duas pedras de gelo e deixar que o tempo o leve para longe, peça ao DJ para pôr Justin Timberlake a rolar no gira-discos. Não se oferece este conselho com base na fisionomia de miúdo vestido a rigor
para um baile de finalistas, nem pela imagem de um homem de negócios feroz (apesar de o ser), mas sim a julgar pelo o que andou a fermentar durante os últimos sete anos e que agora resulta em The 20/20 Experience. Noutras palavras, ele sabe exactamente o flow que está a sentir e o que é isso dese ter classe. E sem esforço.

Além disto, o regresso do músico do Tennessee aos discos de estúdio nãopodia ter acontecido antes ou mais tarde. Este é o momento. É certo que a longa espera por novos originais depois do arrojado FutureSex/LoveSounds podia alimentar a ansiedade pela apresentação de algo muito parecido à fórmula imediatamente anterior, mas Justin parece saber de cor que não é um pau mandado. Há muito que deixou o cabelo oxigenado que envergava nos N'sync e agora largou também o lado menos másculo de um «SexyBack» ou «My Love». A onda dele agora é outra: está mais maduro, mais experimental, mais densamente cinematográfico.

A Sétima Arte de Justin está precisamente no formato película das canções:a maioria tem mais de sete minutos. Timberlake quer contar uma história e para isso precisa de bandas sonoras, concisas, envolventes, que parecem também feitas de propósito para serem tocadas em grandiosos palcos. A longa duração das músicas é, aliás, um pop-up claro em jeito de efeito surpresa de The 20/20 Experience, com excepção apenas de «Mirrors», que tem menos de cinco minutos e é também a mesma que pode levar a pensar-se que o antigo Justin não está afinal totalmente morto, muito em parte por causa das "same old ideias" espalhadas pelas letras. O protagonista (ou a protagonista) é quase sempre uma miúda: tanto a trata por "Strawberry Bubblegum" (pastilha elástica de morango), como por "Pretty Lady". Ainda assim, sabe disfarçar isto com slow jaws («That Girl») ou com atmosferas densas («Tunnel Vision»).

Ainda em termos sonoros, embora repita a longevidade de «What Goes Around... / ... Comes Around (Interlude)», Timberlake optou pela receita de «LoveStones/I Think She Knows (Interlude)», ambos do mesmo álbum de 2006. E esta opção não foi tanto em termos sonoros, mas em termos de formato artístico. Ele retirou-nos o acesso a um botão de repetição, diluiu o fim de umas músicas em fusão com as próximas e o resultado é uma mixtape que destila um vintage dos anos 60 e 70, um neo soul, com elevados recursos a sintetizadores analógicos e a sons orquestrais (voltou a convidar a Benjamin Wright Orchestra para «Pusher Love Girl», a mesma de «Until the End of Time»).

Não dispensa os seus característicos falsetes (e muito raramente deixa a sua voz despida, a não ser, curiosamente, em «Dress On», que a par com «Body Count» - ambas da versão deluxe - parecem estar ligeiramente fora de contexto); está interessado em elementos étnico-orientais («Don't Hold the Wall»); a rouquidão de um Barry White, a infantilidade de um Michael Jackson e pedaços de bossa-nova cabem todos em «Strawberry Bubblegum»; usa um sample africano do Burkina Faso em «Let the Groove get In», fazendo dela a música mais electrizante do álbum, e deixa ainda a respiração profunda imperar em «Blue Ocean Floor», como se quisesse contar de forma explícita que tem tido os últimos EPs de Weeknd a rolar no carro.

Um outro senão está no som 'Timbalandizado' que presiste do álbum anterior. Os tons graves atribuídos ao produtor norte-americano são evidentes ao primeiro beat e Justin não faz qualquer questão de o esconder. A parceria resultou antes, porque não haveria de resultar agora? Mas este é também o único finca-pé do músico, já que parece agora concentrado em mergulhar noutras águas. De resto, estamos perante um Justin reinventado, um "selfmade man" que foi para casa reflectir, reorganizar-se, industrializar-se (montou a editora Tennman Records), fazer-se actor (foi Sean Parker, dono do Napster, no filme 'Rede Social'), enriquecer (comprou em sociedade o MySpace com a promessa de o revigorar) e casar-se (com a actriz Jessica Biel). E até nisto, Timberlake foi sensato demais. Deixou que o burburinho em torno do casamento de Novembro passado assentasse, para depois, em Março, mostrar o que andou a fazer em estúdio, no qual, segundo o próprio, esteve a criar sem regras e sem a pensar num fim concreto.

Justin Timberlake é um Martini guy sem os óculos escuros. Vê bem demais e não há sol que o encandeie. Antes de ser aprumado, é um rapaz arrumado. Não nega as origens pop, os caminhos do hip-hop que precisou de percorrer, mas isso são coisas de um passado tranquilo. Timberlake, ao lado de Timbaland e Jay-Z (que o ajudou no primeiro single «Suit & Tie») são como os Três Mosqueteiros: uma fortaleza que muito dificilmente sai enfraquecida depois de experimentações de underground, mesmo que sejam demasiado arrebetadoras para quem não esperava que o miúdo do Mickey Mouse Club crescesse tão bem.


A house music é uma maria-vai-com-as-outras

"A distinção entre a música electrónica séria e popular tende a ser muito ténue mesmo na análise mais casual. Na verdade, muitos dos avanços registados na música electrónica foram o resultado de uma sobreposição dos dois". Quem o diz é Mark Brend, escritor e músico britânico, no seu livro The Sound of Tomorrow, que explica como a música electrónica foi contrabandeada para dentro do mainstream, editado em 2012. Os termos "séria" e "popular" são aqui utilizados com o seu propósito mais lato, isto é: o som "original" e o som "popizado".

A história da música conta-nos que a house music - género de música electrónica - nasceu em Chicago, no início dos anos 80. A mesma história explica que o termo musical se espalhou pelos bares e pubs da cidade norte-americana, onde os disc-jockeys assumiam os papéis de verdadeiros donos daquilo que saía das colunas: o disco fever de Donna Summer, o electro funk de James Brown, os sintetizadores de Soft Cell ou Depeche Mode, assim como o pop electrónico dos alemães Kraftwerk ou dos japoneses Yellow Magic Orchestra. Depois, juntavam-se os efeitos adicionais, o corte e costura do sampling, a parte da vontade aleatória do DJ. Aquelas mesmas discotecas ficaram ainda conhecidas por aglutinar públicos latinos e afro-americanos.

A música que se ouvia naquelas quatro paredes ganhou o termo "house music" num clube nocturno chamado The Warehouse, que existiu em 1977 e 1983, e no qual Frankie Knuckles era o responsável pelos pratos. No livro ‘House, a história’ (2006) de Rui Miguel Abreu, o público do Warehouse é descrito como “profundamente devoto”. O autor explica ainda que este carácter levou a que muitos manifestassem intenção de levar para casa os temas que Knuckles incluía nos seus sets. Para saberem tudo isto, tinham ao seu dispor a loja Imports Etc, onde a música tocada por Knuckles ganhava espaço. Chamavam-lhe Warehouse Music, designação que eventualmente haveriam de abreviar para House Music. O resultado? Para Rui Miguel Abreu é muito simples: “o nome [house music] apareceu antes do género ter começado sequer a gatinhar, um pouco à semelhança do que, mais ou menos ao mesmo tempo, aconteceu no Bronx com o hip-hop”.

E, por isso, o underground daqueles bares fundos chegou aos céus do mainstream quase sem se dar por isso. Esta febre das discotecas cedo se espalhou por Detroit, New York, San Francisco, Miami ou por uma Europa de Londres e Paris. Os exemplos de denúncias claras do género estão em «Forever More» (2003) dos Moloko, com semelhanças por demais evidentes com «House Nation» (1987), de House Master Boyz and the Rude Boy of Houses, ou «Doctorin» (1988), de Coldcut, ambos considerados como pioneiros pop a beberem a influência da cena electrónica.

Os italianos Black Box são uns dos mais notáveis exemplos da miscelânea: o engenhoso marketing em usar a imagem da modelo francesa Katrin Quinol, mas a voz da americana Martha Wash em «Ride On Time», no final dos anos 80, já mostrava um house fora dos seus parâmetros crus. Entretanto, em Nova Iorque, o trio Deee-Lite lançava «Groove is in the Heart», que se viria a tornar num ícone do house-groove-pop internacional, em paralelo com hip-hopiano «Power» ou o eurodance «Rhythm is a Dancer» do grupo alemão Snap.

Na década seguinte, Robert Miles com «Children» ou «Fable» enveredeva por um dream trance; Wamdue Project usava a voz do soul, Gaelle Adisson, em «King of My Castle», remisturada pelo produtor de house Roy Malone em 1999; «Don’t Give Up» de Chicane em colaboração com Bryan Adams derrubou o primeiro lugar de «American Pie» de Madonna nos tops britânicos no início de 2000. Mas a própria rainha da pop também já tinha experimentado os caminhos da dança electrónica nos inícios dos anos 90 com «Vogue», experiência que aprofundou em 1998 com o álbum Ray of Light e, em 2005, com Confessions on the Dancefloor.

No primeiro, trabalhou com o produtor londrino William Orbit (especializado em música electrónica), e com o qual fez de «Nothing Really Matters» e «Sky Fits Heaven» os melhores exemplos do que a pop era capaz de fazer quando trazia a electrónica para os seus meandros; e no segundo – apoiado na força de «Hung Up», single com acordes de «Gimme! Gimme! Gimme! (A Man After Midnight) dos ABBA - recorreu a Stuart Price, também produtor britânico, largamente conhecido pelas suas colaborações com Pet Shop Boys e New Order, talvez dos maiores culpados pela força do house e electrónica  à volta com o pós-punk em finais dos anos 70.

Desde o início do novo milénio, o protagonismo da electrónica foi ganhando outros contornos com Daft Punk, St. Germain ou Cassius. Ao introduzirem pedaços de funk e o som de sintetizadores analógicos na sua receita electrónica, os três artistas franceses estariam a moldar os standards do house posterior, tornando-o cada vez mais mainstream. A primeira conquista de um hit no Reino Unido por um DJ português, Rui da Silva, é um exemplo claro da plenitude do house. Corria o ano de 2001 quando «Touch Me» - e ainda sem ajuda de uma internet fogosa – rodava exaustivamente nas rádios e o seu respectivo video era emitido numa base diária no canal VH1. Nos dias de hoje, há supergrupos a fazer digressões por causa da house music, como é o caso de Swedish House Mafia, composto por Axwell, Steve Angello e Sebastian Ingrosso.

Para Brend, a mudança no consumo de música é uma questão de hábito: "Tornamo-nos aclimatizados gradualmente a novos sons. Em 1976, a destilação do rock and roll dos Ramones era demasiado para muitos". Mas "as coisas mudaram. Hoje em dia, uma vasta parte da música pop é electrónica ou parcialmente electrónica. Dificilmente faz sentido falar em música electrónica como um género, mas antes em muitos tipos de música que são feitos de forma electrónica".

Se o duo britânico de dança electrónica Tin Tin Out se prestou a partilhar a versão de 'What I Am' com a ex-spice girl, Emma Button, em 1999, dos originais Edie Brickell & New Bohemians; se no ano passado, o primeiro dia do festival Optimus Alive, em Portugal, fechou com uma actuação do DJ francês Justice no palco principal; e se há um programa de rádio chamado ‘Club Anthems’ com playlist de sons "housescos" que pode ser ouvido no Dubai e Abu Dhabi, então a razão está do lado de Mark Brend.

Este reconhece que a pulsação actual do género era inevitável: "Para aí nas primeiras seis décadas do século XX, a música electrónica apenas era definida em termos visionários. Mas agora, décadas depois,  a retrospectiva revela como todas as fases se encaixam. Não se trataram de eventos bizarros ancorados no tempo, mas sim de um futuro". Os renascidos vinis, os DJ Shadows - eles próprios samplados - e os actualizadíssimos Spotify e Soundcloud dão uma ajuda.

Viajei com o Acaso Até Aqui #23

Já modificou a «Paranoid» do Kayne West, já utilizou a «Here Comes the Sun» dos Beatles para a banda sonora do filme Selvagens (2012) e com Adam Young (Owl City) gravou «Shine Your Way» para a película de animação The Croods (2013) da DreamWorks. Foi descoberta pela editora norte-americana Indie-Pop, com a qual acabaria por assinar um contrato depois daquela ter viajado até à Malásia, de propósito, para a convencer a entrar na música de forma maquinal.

Até ali Yunalis Zarai, uma cantora e compositora nascida em Quedá, um dos estados da Malásia, era uma miúda como as outras com queda (ou Quedá) para estas coisas. Começou a escrever as suas próprias letras com 14 anos e cinco anos depois já as exibia ao vivo, altura em que aprendeu também a tocar guitarra.

Uns anos depois, o MySpace foi o melhor amigo de Yuna. Ela explicava-se em inglês e em malaio e elegia Bob Dylan, Coldplay, Feist, Fiona Apple e Sia como os autores do seus discos de estante. No início do ano passado, «Live Your Life» alavancou o que Yuna andava a preparar desde Decorate (2011), o EP além fronteiras asiáticas - para trás já haviam ficado demos e outras pequenas amostras unicamente malasianas. O single integrado no primeiro álbum de estúdio teve a produção de Pharrel Williams, mas é na abertura de Yuna (2012) que o seu indie rock/pop se dilui para um lado melhor. «Lullabies» parece remeter-nos para o trip hop de «Teardrop» dos Massive Attack, vocalizada por Elizabeth Fraser (Cocteau Twins).


Além do colectivo de Bristol, Yuna conduz no mesmo sentido que uma Maria Mena ou uma Nina Persson, comparações mais explicítas, contudo, em Decorate, com «Someone Out of Town» e «Fears and Frustations».

Yuna foi aluna de Direito na Universiti Tecnologi MARA na Malásia; é detentora de um bacharelato em Estudos Legais; é co-proprietária de uma loja de roupa feminina no subúrbio de Subang Jaya no seu país; conseguiu ser finalista da competição "Best New Band in the World", na Times Square, em Nova Iorque, espectáculo emitido ao vivo pela MTVIggy.com e ainda transformou «Come As You Are» dos Nirvana numa outra coisa qualquer.


http://www.yunamusic.com/
http://www.myspace.com/yuna
 

Viajei com o Acaso Até Aqui #22

Apareceu na cena musical no ano passado, mas anda desde pequena a entreter-se com cordas de guitarras. Hoje (ou em 2012) está a entrar na casa dos 30 e já vem com uma imagem transformada de quem já foi pupila e agora é mestre. As razões prendem-se com as performances ao lado de James Chambers (ou Jimmy Cliff, que celebra hoje 65 anos), o escocês Paolo Nutini ou o novato (este, sim) Michael Kiwanuka.

De mãe liberariana e pai jamaicano, Josephine Oniyawa faz-se apresentar com uma voz seca, perturbada e quase perturbante, embebida em folk e com uma postura de quem não veio para não impressionar, pelo menos, não de forma pouco dilatada no tempo (não parece querer ser fugaz ou pouco penetrante como uma VV Brown ou Leela James).

Além de tudo isto, o exercício de associar uma voz a um corpo pode ser muito traiçoeiro. As primeiras impressões fazem-nos imaginar, por vezes, uma mulher voluptuosa com vestes tribais como em «Original Love» ou uma mulher franzinha ao estilo nórdico como em «When We Were Trespassers». Com alma de soul, fez ainda o seu caminho com outros dois EPs A Freak A e I Think It Was Love, ambos em 2010, para depois - dois anos mais tarde - dar-nos o retrato final. O álbum chama-se Portrait e uma das melhores fotografias é «House of Mirrors».



No disco, Josephine tem Leo Abrahams como compositor e produtor, nome que também consta nos trabalhos de Amy Winehouse, Corinne Bailey Rae, Grace Jones ou Nick Cave. «What a Day» foi o single da apresentação da cantora de Manchester. Faz lembrar o resultado de uma receita com os seguintes ingredientes a fermentar: Margo Timmins (Comboy Junkies) e Dani Klein (Vaya Con Dios).


Capitão Ortense e o Hard Rock Rising: a hangover depois da vitória

Chegaram à final da Hard Rock Rising'2013 entre nove concorrentes. O protocolo pedia que fossem os últimos das três bandas a actuarem no pequeno palco do Hard Rock Café, em Lisboa, no passado dia 25 de Março. O facto parece ter funcionado a favor deles. Saíram vencedores da battle, que os colocou como adversários de Dark Waters, de S. Pedro do Sul, e Caelum's Edge, do Barreiro.

Já passava da meia-noite quando o jurí se mostrou pronto para anunciar o resultado da votação. Com uma diferença ténue em relação ao segundo classificado (Caelum's Edge), os Capitão Ortense fizeram jus ao nome. Em entrevista ao Off The Record, João Catarino, vocalista, confessou que nem queria acreditar no que ouviu: "Entre todo o nervosismo e tensão reunidos na hora decisiva, foi algo chocante ouvir da boca de João Pedro Pais o nome da nossa banda. Foi uma mistura de euforia com perplexidade".

Rui M. Leal  . facebook/hardrockcafelisboa
A disputa pela vitória contra o metal profundo de Dark Waters (banda liderada por Sérgio Lucas, vencedor da segunda edição do programa de talentos, Ídolos, em 2004), e do inaugural space rock - género definido pelos próprios músicos da Margem Sul - inspirado nas magnitudes de U2 ou de 30 Seconds to Mars, os Capitão Ortense sabiam onde estavam metidos. "Nunca pusemos de parte a hipótese de poder ganhar, mas a concorrência era forte, o jogo estava aberto e tudo podia acontecer", explicou João.

A decisão tomada pelo painel de jurados - Arte Sonora, Everything is New, João Pedro Pais, MTV Portugal e Rádio Comercial - valeu-lhes uma entrada directa para o Palco Heineken no próximo Optimus Alive. João chama-lhe "um sonho tornado realidade", e acrescenta que o facto de irem fazer parte do cartaz do festival é "a recompensa do trabalho e dedicação" da banda. O jovem de 20 anos, estudante de Direito, reconheceu ainda a importância das próximas mudanças: "Temos noção que este concurso alterou por completo o nosso percurso, cainda na incerteza do que irá acontecer daqui para a frente."

Apesar da qualidade do som pouco perfeita daquela sala emblemática, os Capitão Ortense beneficiaram da voz clara de João - mesmo concorrendo contra uns Caellum's Edge apetrechados de sintetizadores, sons adicionados ao live act a fazer lembrar ecos de estádios cheios e de uma plateia treinada para o final do mini-concerto, ou contra uns Dark Waters poderosíssimos e confiantes na postura quase animalesca de Lucas. Apresentaram-se com um rock popizado maistream, mas com pontas de inteligência muito criativas e com a certeza de que sabem mesmo bem mexer nas guitarras, que parecem tocar desde miúdos.

A média de idades não é uma dor de cabeça. O baterista chama-se Pedro Costa, tem 20 anos e é estudante de Ciências Musicais na Universidade Nova de Lisboa. Ricardo Mendes, também com 20 anos, estuda Engenharia do Som no Instituto Superior Autónomo de Estudos Polítécnicos (IPA) e ocupa-se da guitarra ritmo. E Pedro Gonçalves é colega do Ricardo no IPA, mas é mais novo um ano e é quem manda no baixo.

Os quatro conheceram-se no Centro de Estudos de Fátima, tocaram juntos na escola e eis que resolveram formar a banda há cerca de dois anos e meio. O nome 'Capitão Ortense' "surgiu de uma conversa improvável entre dois amigos músicos que tentavam juntar nomes para bandas simplesmente por brincandeira". A brincadeira ficou séria e foi a junção estranha dos nomes que os fascinou. João diz que houve "vontade de permanecer com [a escolha] para ver se as pessoas aceitavam bem". "Até hoje já ouvi um bocado de tudo em relação ao nome, normalmente de espanto por não se perceber o seu significado aparente", contou ao Off The Record.

E, talvez por causa do à vontade entre eles, a preparação para o evento não fugiu muito da normalidade. João esclarece que fizeram ensaios períódicos como até então tinham realizado, mas agora de uma "maneira mais organizada e profissional". Afinal já andavam com o Hard Rock Rising debaixo de olho há algum tempo: "A ideia [de participação] surgiu já na edição anterior, na qual não conseguimos participar porque a banda estavam em alteração dos membros". No entanto, "o sentimento perdurou até este ano. Fizemos tudo para vingar a oportunidade", contou João.

E o facto de cantarem em português parece ter sido outro ponto a favor naquela noite, já que acabaram por se tornaram na primeira banda a vencer o concurso sem ter que recorrer a línguas estrangeiras. João é quem se encarrega da escrita das letras, as quais são posteriormente analisadas por todos. O objectivo é simples. É para que "soe como todos querem e para que faça sentido dentro dos nossos objectivos", afirmou.  Diz que o processo criativo é diferente de música para música e que tem, regra geral, uma "ideia primária" pensada por ele. 

Rui M. Leal  . facebook/hardrockcafelisboa
Não são estreantes nas actuações ao vivo. O ano passado estiveram no Festival do Avante e a memória só lhes traz boas recordações: "Foi dos momentos de banda mais felizes que tivemos antes da noite de segunda-feira. Foi uma oportunidade gratificante e única. Esperamos lá voltar um dia", recorda João. Ainda assim, o líder do grupo explica que as coisas eram diferentes até ao último ano:"O facto de sermos de longe dificultava a nossa visibilidade, mas desde que estamos todos a viver em Lisboa, o aparecimento começou a ser mais regular. É mais fácil chegar ao públlico que não nos conhece".

A questão da visibilidade vai também ganhar outros contornos. A vitória dos Capitão Ortense nesta competição coloca-os ainda numa órbita ainda maior.  Vão ser sujeitos a uma nova apreciação: podem ser escolhidos para figurar nas dez melhores bandas da plataforma internacional do formato, das quais será ainda escolhido o top três por parte de profissionais da indústria da música.  Se tudo lhes correr bem podem vir a actuar no festival anual Hard Rock Calling, que este ano acontecerá no Parque Olímpico Rainha Isabel, em Londres.

«Falsa Melancolia» é o tema com o qual se andam a apresentar. O título da música, directo e perceptível como eles, espelha aquilo que são.  Quando lhe perguntámos qual é o maior sonho da banda, o músico foi, ao mesmo tempo, prudente e emotivo: "Os sonhos vão sendo construídos à medida que vamos crescendo. Temos ambição de tocar em grandes palcos, mas nada se compara à ambição de fazer para sempre parte do grupo em que estamos, e que a relação que temos não se sinta nunca afectada". São bons miúdos, com as ideias a fervilhar e com muito pouco espaço para ficarem enclausuradas.

Em nome da banda, João definiu, por fim, a vontade que têm em serem uns verdadeiros artesãos do som: "Além de uma simples denominação de capacidades, o facto de reconhecerem a nossa humildade em querer trabalhar com música todos os dias é o melhor elogio que se pode ouvir".

 
 

O regresso depois do regresso


The Strokes
Comedown Machine
2013
RCA Records

7/10

Um dos regressos mais aguardados em 2013: Os The Strokes voltam com o quinto álbum. Comedown Machine junta músicas que sobraram do antecessor Angles e músicas novas, num alinhamento que nos deixa a pensar se dois anos não faziam a diferença no fim do hiato dos Strokes desde First Impressions of Earth, de 2006.

A capa despida e monocromática do álbum deixa adivinhar uma simplicidade ou até humildade no que toca à construção deste disco. E o que se ouve na primeira faixa, «Tap Out», são uns The Strokes fora da zona de conforto, que saíram da sombra dos primeiros álbuns e tomaram a liberdade de fazer novas experiências. O factor inovação é muito refrescante e o acto de experimentar traz consigo uma espécie de diversão inerente que se materializa na forma de faixas como «80s Comedown Machine», «Partners in crime» ou «Call it fate, call it karma».

O single de avanço, «One Way Trigger», que apanhou muitos fãs de surpresa, segue esta onda mais electrónica de synth pop muito presente no álbum como todo. Mas não se assustem, os nova iorquinos não se esqueceram dos mais saudosistas e deixam como presente «All the time» e «50/50», temas que reúnem as características de rock de garagem que tão familiarmente lhes atribuímos.

Comedown Machine é um álbum que quebra a monotonia e traz a mudança que os The Strokes precisavam. É um álbum de transição e de exploração de uma sonoridade diferente, que, apesar de ser uma lufada de ar fresco no trabalho da banda, ainda precisa de ser aperfeiçoada. São uns Strokes que ainda não soam inteiramente a Strokes. É um álbum que aguça a curiosidade face ao que virá depois. Comedown Machine é o regresso que Angles deveria ter sido.